Notas de Contacto – a OCPsolidária na CERCIOEIRAS

A pessoa com deficiência ultrapassa barreiras inimagináveis -

os nossos preconceitos são as nossas deficiências.

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O projeto Notas de Contacto: a OCPsolidária na CERCIOEIRAS iniciou-se em 2009 com o objetivo de desenvolver ações e atividades musicais orientadas para potencializar as capacidades da pessoa com deficiência, promovendo a qualidade de vida e integração nos seus contextos de desempenho. A população com deficiência intelectual necessita de apoio permanente e está frequentemente impossibilitada de aceder a atividades alternativas e muitas vezes significativas para a sua reabilitação e inserção sociais. A aprendizagem musical, cujas metodologias não se adaptam às limitações destas pessoas, é disso exemplo.

Os músicos da OCP em parceria com os terapeutas da CERCIOEIRAS desenvolvem neste projeto estratégias de aprendizagem musical direcionadas às limitações concretas destes adultos, realizando atividades em que a música se apresenta não só como elemento facilitador de comunicação, mas essencialmente como ferramenta terapêutica de melhoria de competências físicas e cognitivas.

As tarefas associadas à aprendizagem musical incluem a utilização do aparelho e memória auditivos, manuseamento de instrumentos, compreensão de notação, interiorização e memorização de partituras, trabalho de grupo nos agrupamentos de música de câmara, apresentações em púbico, entre outras. Recorre-se ainda uma equipa de construção de instrumentos adaptados para a inclusão dos deficientes mais profundos em atividades coletivas com os mais autónomos, favorecendo a partilha de experiências, de entreajuda, e respeito pelo outro.

A música atua como estímulo multi-sensorial e assume-se nesta interação como um meio de transmissão de valores: a cooperação, o respeito, a criatividade, a imaginação e a liberdade de expressão. Os participantes terão na música uma ferramenta para encontrar o seu espaço, função e forma de comunicar.

As atividades proporcionam uma proximidade com o mundo musical: designadamente através da interação com os músicos da OCP e da JOP, a participação em workshops com músicos “criativos”, como: improvisadores, jazzistas e construtores de instrumentos.

O ensemble do “Notas de Contacto” já participou ativamente em diversos concertos, como a Gala da OCP 2016, no Teatro Camões, e nos 10 anos da OCP, em 2017 no CCB. Destacando-se mais recentemente, a parceria com agrupamentos de outras instituições, como os 5ª Punkada na Fundação Calouste Gulbenian em 27 de janeiro de 2018, ou por si só, em dezembro do mesmo ano, na Fundação Oriente, ou incluídos na JOP, na edição de 2018 do Festival dos Dias da Música em Belém, no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém.

A Orquestra de Câmara Portuguesa recebeu, com o projeto “Notas de Contacto – a OCPsolidária na CERCIOEIRAS, uma Menção Honrosa do Prémio Acesso Cultura 2016. A Acesso Cultura pretende distinguir, divulgar e promover entidades (privadas, públicas, cooperativas, associações e outras) e projectos que se diferenciam pelo desenvolvimento de políticas exemplares e de boas práticas na promoção da melhoria das condições de acesso – nomeadamente físico, social e intelectual – aos espaços culturais e à oferta cultural, em Portugal. Pretende ainda criar exigência junto dos públicos, com vista à melhoria da acessibilidade, assumida como um todo.

Em julho de 2019 esteve presente no festival Young Euro Classic, na mítica Konzerthaus em Berlim, onde estreou a composição “Alcance” (“Reach”), obra para 5 solistas do Projecto Notas de Contacto, 3 músicos e grande orquestra com a Jovem Orquestra Portuguesa – JOP, de João Godinho. O compositor foi convidado para compor para o projeto Notas de Contacto – a OCPsolidária na CERCIOEIRAS no âmbito do PARTIS III e, com esta peça, foi distinguido com o “European Composer Award”. Este prémio “é concedido em reconhecimento da melhor estreia mundial” pela organização do festival Young Euro Classic .

“ACREDITAR

é a palavra inspiradora deste livro.

Acreditar que as pessoas com deficiência intelectual tem apetências e competências para desenvolver um
trabalho na área da música, da aprendizagem dos ritmos e sons, dos instrumentos musicais, do comportamento social, do… nem o céu é o limite!

Evidenciar competências adormecidas e aumentar o potencial de aprendizagem ao trabalhar áreas como a concentração e a atenção, o saber estar, o ritmo, a posição no espaço, a persistência, a capacidade de lidar com a frustração… estas questões aliadas às apresentações em público, cada dia com maior qualidade, e ao reconhecimento do seu valor pelos outros, aumentou a sua confiança e a sua auto estima.

Acreditar que a valorização pessoal e social é uma componente importante do crescimento e desenvolvimento humano. Quanto mais nos valorizamos e somos valorizados, mais queremos e conseguimos
superar obstáculos que se apresentam no caminho e, em todos os caminhos, existem obstáculos.

Levar a palco clientes com as suas dificuldades (ou devemos falar de potencialidades), a que se junta o
nervosismo da apresentação requer assertividade, paciência, espírito de equipa e capacidade de prever e
antecipar situações problemáticas, trouxe crescimento pessoal e profissional.

Acreditar que o Ser Humano é resiliente, é tenaz, e é alegre! Capaz de superar tudo e, bem difícil, superar-se.

Este livro aborda e leva-nos aos bastidores de muitos dias duros, de como contornamos a diversidade, de
como encontramos novas metodologias, de como clientes, famílias, colaboradores, músicos se encontram num espaço e tempo desconhecido e, desse encontro, nasce música, nasce amizade, nascem novas competências.

A cada dificuldade uma solução e, a cada solução a superação e a alegria pelo sucesso dos seus alunos.

O trabalho desenvolvido exigiu por parte dos profissionais da CERCIOEIRAS e dos músicos da OCP um estado de abertura que lhe permitiu pensar “fora da caixa”. Pensar e adequar cada música, cada instrumento às características e potencialidades de cada cliente foi uma tarefa muitas vezes difícil mas possível. Mas, se acreditar é a palavra inspiradora ela seria muito redutora sem a ação de implementar.

Por isso, neste livro, vamos encontrar testemunhos, metodologias, estratégias, como se faz e como se avalia. Vamos ler sobre mudança e debate frequente, sobre trabalho em equipa e sobre cooperação, interajuda e pesquisa, o que facilitou a experimentação de novas propostas de trabalho.

Neste livro acreditamos que tudo é possível.

Ivone Félix”
(In “Manual Notas de Contacto”)

“SONHAR

Quando o meu avô colocava discos das valsas de Strauss e me dizia que dançasse, a minha cabeça estonteava-se de tanto baloiçar e os meus ataques de riso contagiavam o sorriso dele, do meu avô, o Francisco das valsas.

Era uma menina com muita energia e cinco irmãos.

Sendo a terceira embainhava a espada para os dois lados, ora enquanto mais nova, ora enquanto mais velha. Cansava a minha mãe que me punha a gastar energia na sala junto do meu avô. Nesse estonteamento nasceu o sonho de dançar. Das valsas de Strauss passei para os outros discos nos quais aprendi cedo a manusear cuidadosamente a agulha do gira discos, Beethoven, Chopin, prelúdios de Bach e depois… depois não parei de dançar e de sonhar.

Quando conheci a Madalena, vizinha do mesmo prédio durante vários anos, partilhávamos a mesma hora de saída de casa, eu a caminho do Ballet Gulbenkian e ela?

Um dia enchi-me de coragem e perguntei à sua mãe, uma senhora simpática e sempre de sorriso rasgado. Para onde vai a Madalena? Respondeu: para a Cooperativa de São Pedro, onde passa o dia em atividades e terapias. Fiquei com vontade de conhecer o seu mundo.

Mais tarde quando fundámos a Orquestra de Câmara Portuguesa, agarrei a missão de levar a arte à comunidade com o objetivo de levar a comunidade aos artistas que connosco trabalhassem. Virara do avesso a temática da inclusão, que visa sempre olhar o que distingue as pessoas diferentes, neste caso adultos com deficiências múltiplas, e incluí-las ou despeja-las no seio social muitas vezes inapto para os receber.

O avesso era e ainda é, tocar a alma dos artistas.

Tinha passado por um processo semelhante em Inglaterra e França e o meu crescimento artístico e pessoal estava mais rico, mais cheio.

Porque não proporcionar algo que considerava já, nessa altura, tão importante?

Sonhámos juntos.

Fomos ter com a Dra Ivone Felix, uma senhora extraordinária, um modelo e exemplo de liderança e amor em todos os seus gestos. Perguntámos se poderíamos oferecer experiências musicais na então, Cooperativa de São Pedro e o acolhimento foi espectacular até aos dias de hoje. As aprendizagens em distintas áreas, têm sido verdadeiras lições de vida que nos provam que acreditar e sonhar é um motor inigualável no rumo para uma sociedade que precisa de encontrar paz de dentro para fora do tecido social.

Em 2009, em Genebra, no centro da cidade, reparei que havia muitas pessoas com baixa mobilidade na cidade, que está, obviamente, preparada para os receber. A subir a escada rolante no centro da estação de comboios, levantei os olhos e li: “Os deficientes ultrapassam barreiras inimagináveis, os nossos preconceitos são as nossas deficiências”.

Foi então nesse ano que subi o pódium do maestro num ensaio da OCP e perguntei se alguém estaria interessado em fazer trabalho de voluntariado na Cooperativa de São Pedro, uma IPSS que tinha acabado de visitar e onde seria vital começar uma relação para o futuro. Houve um músico que levantou a mão, Pedro Lopes violinista. Lembro-me de ter pensado, que jovem, que bom, vamos começar, aqui respira o futuro.

O Pedro Lopes criou, metodologias, inventou estratégias e tornou este sonho real.

Todos os músicos que passaram pelo projeto nestes últimos 10 anos saíram mais completos e serão com
certeza artistas mais felizes e mais atentos ao que os rodeia.

Teresa Simas”
(In “Manual Notas de Contacto”)

“CORAGEM

A Música representou, sempre, um acto de coragem: tocar um instrumento musical em público foi (aliás, é!) um processo difícil que apenas o amor pela arte dos sons ajuda a dissipar. Não faz sentido criar um projecto musical que não coloque a música no centro das humanidades, que nos possa nutrir através da experiência musical: envolvendo toda a comunidade no processo de criação, difusão e partilha de todas as músicas, da mais arcaica aos sons do presente. No dia em que a Teresa Simas e o seu poder de iniciativa organizaram num ápice a primeira visita à CERCIOEIRAS, admito que foi com algumas reservas que pisei o palco improvisado do ginásio (agora palco de tantos sons e partilha!) com receio e desconfiança. Foi um momento estranhamente poderoso e sem dúvida, inesquecível. Nada do que tinha aprendido, como músico, me tinha preparado para aquele momento: habituado ao suposto poder da música, numa situação “normal”, as minhas competências ou qualidades como intérprete de pouco ou nada me pareceram úteis para chegar a estas pessoas. Foi apenas mais tarde, ao levarmos o embrião da Jovem Orquestra Portuguesa (na altura chamava-se OCPzero) a este mesmo ginásio, que um dos episódios mais marcantes da minha vida artística aconteceu: no final da brilhante oficina conduzida pelo violinista Pedro Lopes (o primeiro músico que se disponibilizou para trabalhar neste projeto) e após a apresentação dos naipes e instrumentos constituintes da orquestra, decidimos tocar na íntegra o Allegretto da 7a Sinfonia de Beethoven. A descrição singela deste andamento, tão simplesmente allegretto (leve, gracioso) contrasta com a música, essa uma canção de embalar poderosa, profunda, uma meditação misteriosa e complexa.

Os jovens músicos tocavam de pé (como tantas vezes, nos nossos concertos), com os clientes dentro da orquestra. Num dos momentos mais extraordinários deste trecho musical, quando a orquestra prepara um longo crescendo, telúrico, repetindo com todo o fulgor a tema hipnótico, o cliente que se encontrava junto
a um dos músicos emocionou-se — nesse instante, o jovem contrabaixista, o ser humano ao seu lado e este maestro partilharam uma lágrima inesquecível.

A Música dissipa fronteiras, porque é Eterna.

Pedro Carneiro”
(In “Manual Notas de Contacto”)