Luís Andrade investe nos mais novos

“O violoncelista e maestro Luís Andrade foi convidado e vai participar novamente no estágio da Jovem Orquestra Portuguesa (JOP), este ano a decorrer de 6 a 10 de abril sob a orientação do maestro Pedro Carneiro. O músico será responsável por orientar os ensaios dos violoncelos e contrabaixos. Recentemente, orientou os ensaios de violoncelos na Jovem Orquestra da Holanda.

A JOP foi criada em 2010, inicialmente com o nome OCPzero. Em 2013, ao ingressar na Federação Europeia de Jovens Orquestras Nacionais (EFNYO – European Federation of Youth Orchestras) adoptou o novo nome, mantendo como objectivos o valorizar o trabalho artístico da juventude portuguesa, servir de embaixadora de excelência e identidade nacionais e inspirar o público através da integridade e alegria das suas actuações.

Em casa, a orquestra é presença assídua dos “Dias da Música” que se realizam no Centro Cultural de Belém e no Lisbon Music Fest, entre outras actuações. Em território internacional, actuou no Festival de Kassel e no Young Euro Classic na Alemanha e nos festivais Vară Magică e Enescu and the Music of the World, na Roménia.

Luís Andrade revelou ao DIÁRIO que aceitou o convite pela quarta vez pelo trabalho pedagógico que tem oportunidade de desenvolver. É uma oportunidade de ter um trabalho mais efectivo e próximo com os jovens músicos, diz, a par de defender ser importante conhecer os próximos músicos portugueses. “A receptividade dos jovens a um trabalho, a um ensaio, é totalmente diferente da de um músico de uma orquestra profissional”. A diferença, explica, é que são como um colega no primeiro dia de trabalho. “Há abertura, curiosidade, o que pode ser extremamente gratificante, embora tecnicamente e musicalmente não sejam perfeitos”. “Há muito que se recebe de volta”, resumiu. Se houver ainda a possibilidade, o maestro vai dirigir a JOP numa peça. “Vai depender do repertório escolhido e dos concertos previstos para depois do estágio”. Para já estão confirmados concertos em Palmela e em Lisboa, nos Dias da Música do CCB.

Luís Andrade será o único madeirense presente. Questionado porque não estão os jovens músicos de cá representados também neste projecto, explica que se deve apenas a uma questão financeira. “A JOP não tem apoios que lhe permitam financiar a deslocação.”

Aposta em novo repertório

Luís Andrade é violoncelista da The Netherlands Symphony Orchestra. A par disto, no âmbito dos 250 anos do nascimento de Beethoven tem trabalhado as sinfonias deste compositor, um projecto que passou pela Madeira através da Associação Amigos do Conservatório de Música da Madeira, onde interpretou cinco obras ao lado do pianista Robert Andres. Vai apresentar este programa no dia 28 de Março na Alemanha, no Verão levará à Bélgica e no final de Novembro à Áustria.

Tem também um projecto para violoncelo a solo centrado na música religiosa, iniciado há dois anos em Hamburgo. Dele nasceu o convite a dois compositores madeirenses para criarem obras para o violoncelista de cariz religioso. A do jovem Daniel Perzhan estreia já no dia 22 de Março numa actuação em Amsterdão, revelou Luís Andrade. A de Nuno Jacinto vai estrear a 7 de Junho em Rheinen (Alemanha) e será interpretada uns dias depois, a 10, em Hamburgo, juntamente com a obra de Perzhan e uma peça de Victor Costa que nunca foi tocada intitulada “Romanze”.

Luís Andrade tem-se dedicado a divulgar a música inédita de Costa. Já tinha estreado outras duas obras – “Partida”, em Janeiro do ano passado em Hamburgo e “Diálogo” em Setembro de 2019 em Estugarda. As três fazem parte de de um conjunto de peças para violoncelo solo que o compositor e maestro falecido em 2018 escreveu em 2016. Tem interesse ainda em fazer a sonata para violoncelo e piano também do compositor madeirense, escrita no início dos anos 80, que nunca foi interpretada. Propôs fazer na Madeira, eventualmente num concerto de homenagem ao compositor. Para já nada está marcado.

O interesse do violoncelista pelas obras do maestro não se fica por aqui. Sempre que toca a solo, Luís Andrade interpreta o Hino da Madeira, escrito por João Victor Costa, numa versão para violoncelo solo da autoria de César Gonçalves, outro madeirense, a residir em Lisboa.

O músico gosta de investir em novas obras, não só porque o repertório para violoncelo é limitado, como porque acredita que é necessário dar espaço a novas músicas e aos jovens compositores. Por isso, sempre que tem oportunidade, vai fazendo encomendas. “É um processo. O que seria de Beethoven se não lhe pedissem? Para o crescimento é importante”. No seu entendimento, não é possível tocar sempre as mesmas obras e tocar coisas novas contribui para o crescimento. E diz-se aberto a qualquer compositor que o procure com obras para violoncelo ou mesmo para orquestra, qualquer tipo de música que o compositor ache que o público quererá ouvir”.    

In DN Madeira 07/02/2020

Paula Henriques (phenriques@dnoticias.pt)