Artigo de Opinião – Pedro Carneiro – Revista Visão

Este mundo não presta, venha outro1

 

“Estas palavras soltas, escritas ao sabor do vento, acabaram de ser retiradas de um diário de bordo interior e são deste modo reflexões incompletas, pensamentos inacabados sobre a impossibilidade objectiva de descrever a Música com a matéria deste mesmo discurso: as palavras.

Mas vamos tentar, não vamos baixar os braços.

Levantar ferro, partir:

Música, Som, Orquestra, Beethoven.

A Música: o princípio.

O Som: máteria prima.

A Orquestra: uma alegoria em forma de máquina colectiva, constituída por obreiros-artistas esclarecidos que se reúnem com o intuito de procurar o aperfeiçoamento individual e colectivo através da hermenêutica musical, deste modo enriquecendo a Humanidade.

Beethoven: escritor de música-literatura com uma mensagem mais forte que a nossa vontade, doravante denominado o farol.

Navegar à popa:

 Abrimos a porta da velha sala de ensaio.

O pódio do maestro:

Trono, solene, elevado

Símbolo da exaltação indomável do poder e da vontade individuais?

Impossível.

O ensaio é o ponto de partida desta viagem dividida: temos a empatia, a chegada ao “outro”, uma entrega generosa, tolerante e consciente; do lado oposto, a inevitabilidade da não-cedência ao compromisso, a luta pelo ideal absoluto: a defesa pela integridade das palavras-som inscritas na partitura-herança.

O ensaio é uma prova dura, que testa até ao limite a coragem (individual e colectiva). Um espelho extraordinariamente hábil, fabricado com o intuito de ludibriar, revelando o melhor e pior da nossa natureza. Aqui ensaia-se a coragem para realizar o crescendo mais violento no momento mais inesperado, a resiliência de conseguir fazer desaparecer um som até ao limiar do silêncio, ou tão simplesmente manter a concentração quando o corpo-mente já abandonou a velha sala de ensaio.

E a acção na orquestra? E a impaciência? É preciso saber esperar, aguardar pelo momento favorável, com a consequência devastadora de promover o insucesso desta sociedade-orquestra.

E será possível ouvir qualidades morais ou o apreço através da energia empregue na realização do ideal inscrito na tal partitura-herança, uma coleção de símbolos ordenados, uma sugestão de emoções e ideais?

Navegar à bolina, avistando o farol:

Através da exigência intransigente nos manuscritos do farol (ouve como sussurra em forma de som ao teu ouvido: avança, agora, mais além, sempre…), descobrimos que sem compromisso individual, não há evolução na orquestra.

O farol atribui responsabilidades partilhadas a todos os músicos-obreiros, para que todos transponham barreiras inicialmente intransponíveis na construção desta orquestra, agora um exemplo de democracia e ética para a sociedade. No momento da sua prática (ensaios e concertos) todos os músicos em palco são iguais e como tal o valor individual é apreciado em função das suas qualidades morais.

Poderá ter o farol delineado um manual de instruções, onde a sua Música é um epítome de tolerância, solidariedade, disciplina e consciência do contributo individual e colectivo?

E a verdade? O maestro argentino Daniel Barenboim diz-nos que “ (…) a partitura não é a verdade. A partitura não é a obra. A obra surge apenas no momento em que é feita soar.” [1] A orquestra faz soar a verdade e a Música manifesta-se na sua multidimensionalidade, movendo-se incessantemente no plano vertical e horizontal do Tempo, do Espaço e da Ordem.

Junto ao leme:

E afinal sobre Beethoven? É uma impossibilidade objectiva descrever a Música com palavras. Não baixei os braços, mas esta viagem infelizmente terminou.

Lançar amarras:

“ (…) Hão-de cair em estrondo os altos muros / E chegará o dia das surpresas.” [2], escutou Beethoven esboçando um sorriso cúmplice.

Obrigado farol: quando soar a tua obra, o outro mundo chegará.”

Pedro Carneiro  – in “Visão – Biografia“, Dezembro 2020 / Fevereiro 2021, Nº 6, pp.104, 105.

 

Escrito de acordo com a antiga ortografia

[1] Daniel Barenboim e Edward W. Said, Parallels and paradoxes: explorations in music and society, Vintage Books, Nova Iorque, 2004

[2] “Os Poemas Possíveis”, José Saramago, Portugália Editora, Lisboa, 1966